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Quando o aplauso precisa vim primeiro de fora para sua terra valorizar

Por Anderson Rosa

Nos últimos dias, muita gente se emocionou ao ver o cantor Jerônimo Vaqueiro cantando para uma praça quase vazia e, logo depois, sendo celebrado nas redes sociais, por artistas e públicos de todo o Brasil. O vídeo viralizou. Vieram os aplausos, os elogios, os convites. Veio o reconhecimento.

Mas ele não começou ali. Ele já estava aqui.

A cena não é sobre música. É sobre mentalidade.
É sobre como, muitas vezes, o valor só é reconhecido quando recebe carimbo de fora. Antes disso, é tratado como comum, invisível ou dispensável.

O filósofo Arthur Schopenhauer escreveu que “o talento acerta um alvo que ninguém mais consegue atingir; o gênio acerta um alvo que ninguém mais consegue ver”. O problema é que, em muitas cidades como a nossa, o alvo só passa a ser visto quando alguém de fora aponta.

A ciência ajuda a explicar esse comportamento. Estudos da psicologia social mostram o chamado efeito de validação externa: indivíduos e grupos tendem a atribuir mais valor a pessoas, ideias ou produtos quando eles já foram aprovados por uma autoridade externa ou por um grupo maior. Em termos simples, as pessoas confiam mais no que o mundo aplaude do que no que nasce ao lado delas.

Isso não acontece só com artistas.
Acontece com profissionais, ideias, empresas, lideranças, talentos locais de todo tipo. Acontece em Lagarto, em Sergipe, no Brasil inteiro.

Eu vi isso se repetir muitas vezes. Pessoas desacreditadas aqui, tratadas com indiferença, que só passaram a ser respeitadas depois que cresceram fora. Depois que alguém de longe disse: “isso tem valor”.

E aqui está o ponto incômodo: o problema não é quem sai e cresce fora. O problema é quem só aprende a reconhecer depois que perde a chance de valorizar antes.

Quando a praça está vazia, o talento ainda é talento.
Quando o palco é pequeno, a dignidade do esforço continua a mesma.
Quando o aplauso não vem, o mérito não desaparece.

Talvez esteja na hora de inverter a lógica.
De parar de agir como se o que nasce aqui precisasse primeiro ser validado lá fora para merecer respeito aqui dentro.

Porque, se só aprendemos a aplaudir depois que o mundo aplaude, o erro não está em quem sobe ao palco.
Está em quem sempre chega atrasado ao reconhecimento.

E isso, sim, diz muito mais sobre nós do que sobre eles.

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